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Foco Acessível Do lado esquerdo, dois círculos — um maior (tracejado, sem preenchimento) e um menor (preenchido). Ao lado, o texto “Foco Acessível”, apresentado na cor verde escuro.
Episódio #8 / 01:28:04
Retrato de um homem de pele clara, com cabelos escuros penteados para trás, vestindo camisa social branca e paletó preto. Ele sorri levemente e ao fundo, uma parede lisa e cinza.

Entre normas e pessoas: o caminho da acessibilidade digital com propósito

Bruno Welber • Arquiteto Líder de Acessibilidade

Neste episódio do Foco Acessível, Bruno Welber compartilha sua experiência com as diretrizes WCAG e os desafios de aplicar acessibilidade digital de forma prática e humana. Um papo essencial para quem trabalha com tecnologia inclusiva.

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Neste episódio do Foco Acessível, recebemos Bruno Welber, referência quando o assunto é WCAG – as diretrizes internacionais para acessibilidade na web. De forma leve e cheia de trocas sinceras, Bruno compartilha sua trajetória profissional, os desafios do dia a dia lidando com padrões de acessibilidade e como traduzir diretrizes técnicas em práticas reais que funcionam para pessoas reais.

Falamos também sobre os limites e as possibilidades da acessibilidade digital no Brasil, o papel das equipes multidisciplinares e a importância de formar uma cultura onde acessibilidade não seja um item de checklist, mas parte natural do processo criativo e técnico.

Um papo direto, cheio de aprendizados e provocações importantes para quem trabalha com tecnologia e quer construir experiências mais inclusivas.

Junte-se a nós nesta conversa inspiradora e informativa sobre o futuro da tecnologia acessível! E não se esqueça de acessar os links e à transcrição desta conversa e nos seguir nas redes sociais: LinkedInInstagramTikTokBluesky E se você tiver alguma sugestão ou feedback, adoraríamos ouvir de você - participe e contribua para tornar o mundo um lugar mais acessível e inclusivo para todos.

Índice do episódio

  • 00:00:02 - Introdução
  • 00:00:21 - Autodescrição - Wagner
  • 00:01:10 - Biografia do convidado
  • 00:01:55 - Autodescrição - Bruno
  • 00:02:25 - Pergunta 1
  • 00:10:00 - Pergunta 2
  • 00:13:55 - Pergunta 3
  • 00:18:48 - Pergunta 4
  • 00:24:33 - Pergunta 5
  • 00:29:10 - Avisos
  • 00:29:56 - Pergunta 6
  • 00:39:10 - Pergunta 7
  • 00:42:57 - Pergunta 8
  • 00:49:05 - Pergunta 9
  • 00:52:38 - Pergunta 10
  • 01:00:20 - Pergunta 11
  • 01:07:54 - Pergunta 12
  • 01:10:15 - Pergunta 13
  • 01:13:20 - Pergunta 14
  • 01:17:35 - Avisos
  • 01:18:05 - Recomendações
  • 01:22:38 - Mensagem final
  • 01:26:50 - Enceramento

Biografia do especialista

Especialista em acessibilidade digital, inclusão e diversidade, com 12 anos de atuação estratégica e multidisciplinar na área de tecnologia da informação. Com experiência consistente em desenvolvimento e design inclusivo, dedica-se integralmente à acessibilidade digital, impacto ESG e liderança técnica e humana.

Acredita que acessibilidade, inclusão e diversidade caminham juntas e são essenciais para promover transformação social e corporativa. Comprometido com a inovação, busca engajar equipes.

Edição do episódio: Booa, Paulo! Design & Multimídia

Wagner Beethoven:Sejam todos, todos. Bem-vindos a mais um episódio do Foco Acessível! Eu sou Wagner Beethoven. Vou conversar com o convidado conhecido por saber tudo sobre a WCG, o Bruno e o B. Mas antes de começar a conversa, vou descrever pra aqueles que não estão me vendo. Eu sou um homem de pele branca, tenho um cabelo na cor castanho, barba de tamanho médio. Estou vestindo uma camisa com a estampa do pai da família Dinossauros, aquele seriado antigo, nostálgico dos anos 90. Contexto: era só mais um Silva na cor amarela. Pra quem é novo aqui, o Foco Acessível é um podcast sobre acessibilidade, diversidade, inclusão na tecnologia e, a cada novo episódio, eu trago profissionais ligados ao assunto pra compartilhar experiências comigo e com você que está ouvindo. Você pode acompanhar os episódios em vídeo no Spotify e no YouTube e nas principais plataformas de podcasts. Se puder, compartilhe esse conteúdo pra quem se interessa pelo assunto. Assim a gente alcança mais pessoas. Então vou fazer uma biografia do nosso especialista. Ele foi muito modesto, ele é muito experiente, mas Bruno… Bruno Elba é especialista em acessibilidade digital, inclusão e diversidade. Com 12 anos de atuação estratégica e multidisciplinar na área de Tecnologia da Informação. Com experiência consistente em desenvolvimento e design inclusivo, dedica-se integralmente à acessibilidade digital, impacto e ESG. Liderança técnica e humana. Acredita que acessibilidade, inclusão e diversidade caminham juntas e são essenciais pra promover a transformação social e corporativa. Comprometido com a inovação, busca engajar equipes. Bruno, seja muito bem-vindo ao Foco Acessível e muito obrigado pelo seu tempo. Temos coisas muito bacanas pra conversar, mas antes, se autodescreva pra nossa audiência.

Bruno Welber: Olá! Todas as pessoas… me apresentando: eu sou o Bruno. Eu sou uma pessoa de pele clara, estou usando um headphone, estou com uma camisa azul, tenho cabelo bem curtinho, preto e, no momento, estou sem barba. Às vezes eu deixo ela crescer, às vezes não. Como todo bom profissional de TI, a gente fica variando um pouco. E muito prazer por estar aqui com você. Wagner… e uma boa audiência no Foco Acessível.

Wagner Beethoven: Bom, Bruno, pra introduzir as nossas perguntas, eu vou conversar com o bloco de dois perímetros. Primeiro, queria saber como é que você ingressou no universo da acessibilidade digital e o que transformou esse tema tão relevante pra você como profissional e líder.

Bruno Welber: Bom, eu comecei com a acessibilidade digital… o primeiro contato que eu tive com ela foi em 2011 e também em 2010 e logo já comecei a trabalhar e eu trabalhava numa agência de criação de sites. Nessa agência, o proprietário da agência viu uma oportunidade de falar sobre acessibilidade pra prefeituras como forma de conseguir os contratos e tudo mais. E ele me trouxe essa proposta. A princípio, e mesmo sendo uma pessoa com deficiência, eu não conhecia nada de acessibilidade. Tinha recém-formado, era uma pessoa com deficiência, mas eu não conhecia nada de acessibilidade… do mundo. Aí ele me trouxe essa proposta. Achei muito interessante. Beleza, vamos lá. É um jeito de conseguir um contato com a prefeitura aqui da região de Minas e o “premiado” dá uma olhada no site aí… “tudo bem, dá uma olhada no site.” E, pra mim, aparentemente, tava muito bom. Não tava ruim. “Tá bom, tá bom, dá pra pegar, dá pra ver as coisas aqui, tá legal.” E falei pra ele que tava bom, que estava bom. Aí ele falou pra prefeitura, ou seja, que “vocês estão bom, gente, vai ter que fazer.” Aí, depois que eu comecei a perceber alguns probleminhas ali, e aí eu falei… fiquei puto falando que tinha alguns probleminhas. Aí… ele ficou muito pistola porque perdeu o contrato, né, com a prefeitura, porque, a princípio, eu já tinha falado que estava bom. Só que esse fato de ele ficar irritado foi bom pra mim, porque, depois disso, eu comecei a pensar: “pera… deve ter alguma norma, deve ter alguma coisa que normatiza, que dá um parâmetro aqui pra tal da acessibilidade.” E foi aí que eu comecei a, de fato, ter contato com o universo da acessibilidade, as normas WCG e por aí vai. Então tudo começou a partir dessa provocação. A partir desse momento que ele me provocou a ter esse olhar um pouco mais técnico, mais crítico, sobre aquela minha afirmação: se aquilo ali estava ou não estava acessível. E aí comecei com esse pequeno insight e as coisas começaram a fluir… e continuei muito mais focado em movimento do que em acessibilidade, a fazer algumas coisas bem pontuais. Mas, em 2012, um e-mail… tive algum contatinho com ele, em 2013 veio o meu primeiro trabalho profissional com acessibilidade. Esse primeiro trabalho foi, inclusive, um que eu tenho muito orgulho, que foi o site da Luísa Cásper, uma super profissional que eu tenho um super carinho, até mesmo por ser a primeira artista a se preocupar, de fato, com a acessibilidade na cultura no Brasil. Eu tenho essa visão sobre ela, e comecei a trabalhar com o site dela, deixar o site acessível, em parceria com uma empresa chamada Acesso Para Todos. Foi o primeiro trabalho e ali as coisas começaram a fluir melhor e eu comecei já a fazer essa convergência na minha carreira: de resolvedor pra acessibilidade. E assim fui levando os dois em paralelo até 2015, aproximadamente, fazendo acessibilidade no movimento sanitário de isolamento. E aí, com um projeto de uma companhia aérea brasileira que estava sofrendo várias… vamos dizer assim… retaliações no exterior por falta de acessibilidade. Esse projeto pra otimizar jogos foi quando eu realmente comecei a me dedicar integralmente à acessibilidade e aí eu já não mais tinha o lado de provedor, mas tinha também o lado acessível plenamente ali na minha carreira, na minha vida. E, daí pra frente, foi só a acessibilidade. Agora eu falo um pouco sobre liderança e o que isso impactou ao longo do tempo. Obviamente, quando eu comecei ali, eu estava ali como júnior, depois pleno, sênior… e assim foi. E é muito interessante porque, às vezes, as pessoas podem ter uma visão preconcebida de que, a partir do momento que você trabalha com acessibilidade hoje, você já é uma pessoa empática, você já é uma pessoa super humanizada, uma pessoa super… vamos dizer assim… “nossa, eu sou alguém aqui e tenho atenção por todos”, e por aí vai. E não é verdade. Em que sentido é que eu digo isso? Quando eu comecei, de fato, com liderança ali por volta de 2017, 2018… finalzinho de 2017, 2018, eu era uma pessoa muito técnica, muito técnica, ao ponto de, tipo assim, ser aquela pessoa que tinha atrito com dev e por aí vai, porque realmente não entendia o porquê as pessoas não viam a acessibilidade, o quanto ela tinha um diferencial, o quanto ela tinha de uma relevância. E até pelos meus próprios analistas… naquela época eu tinha uma visão muito técnica. Então, quando eles cometiam, às vezes, alguma falha, alguma coisa, pra mim eu falava: “como assim?”, né? E tinha essa visão muito engessada. E, com a prática, e cada vez mergulhando mais fundo na acessibilidade e começando, de fato, a amadurecer que acessibilidade é, sim, empatia… só que uma empatia que não pode ser só olhando o cliente final, mas tem que ser uma empatia olhando todos à sua volta e criar uma cultura de inclusão, criar uma cultura de você realmente olhar aquilo ali como estratégico. Eu fui mudando como líder e fui me moldando pra hoje eu ser a pessoa… ser o líder que busca das pessoas, vamos ver assim, o melhor de cada um, entregando as suas características, suas habilidades, explorando as possibilidades que cada um tem. Isso foi… a acessibilidade que me ensinou. Não mais que eu já até trabalhava com o tema, mas foi a prática, foi a carreira, os anos ali praticando que me ensinou isso. Que me ensinou a ter esse olhar humano até mesmo quando… sabe? “Ah, pra quê que eu vou fazer acessibilidade?” Um troço acontecido que foi muito engraçado… por volta de 2000 e… não lembro exatamente… em 18, 19, a gente… eu e um colega meu… a gente foi numa consultoria que estava desenvolvendo o aplicativo e a gente precisava fazer os testes. E o desenvolvedor foi muito agressivo com a gente, no sentido de por que ele fazia acessibilidade. E eu lembro que esse meu colega, depois que a gente fez… falou: “meu medo é se encontrar com esse cara na rua, eu dava um soco nele.” E daí tudo ali foi ver que já estava começando a ter esse outro olhar, essa outra visão: que não existe… não pode ser assim. Então, né, a ferro e fogo… não precisamos ser tão agressivos. A gente precisa ter um lado mais empático com todo mundo. Foi quando eu falei: “não… mas peraí, peraí… não é complicado porque ele está falando isso. A cobrança dele, o conhecimento que ele tem… é tudo que está relacionado nesse contexto dele também.” E a partir daí foi… foi indo… e a gente foi amadurecendo e trazendo esse lado mais empático não só pra técnica, não só pra aplicação de acessibilidade, mas pro convívio também com as pessoas… nessa parte cultural que a gente precisa ter.

Wagner Beethoven: Dessas duas falas eu tenho um comentário que é… acho que esse seu amigo aí que queria ser agressivo… eu acho que faltou paciência. Na verdade, ele não aguentava mais, né? “Muito obrigada… vou ter que bater e conversar sobre o óbvio que tem que ser feito”, né? E aí eu queria fazer uma pergunta… tu quer… Quando eu tô analisando qualquer coisa, eu sempre puxo pra esse viés de: “vou ver como é que tá a acessibilidade desse site, desse sistema, ou de qualquer outra coisa que eu esteja fazendo.” Sempre tem esse “me”. E você, quando tá fazendo essa análise, e você sendo uma pessoa cega, você consegue chavear tipo: “opa, eu tô podendo ser uma pessoa cega, mas sou um especialista… eu tô pegando meios de driblar falta de acessibilidade”, sabe? Ou você consegue dizer assim: “opa, agora eu vou só apenas usar como um usuário leigo, assim… vou tirar meu viés de especialista e vou seguir fazendo essa avaliação como um usuário comum.” Você consegue chavear isso? Porque eu não consigo.

Bruno Welber: Sim, é essencial. É essencial aprender a fazer isso. Por quê? A partir do momento em que você vai se aprofundando tecnicamente, você, de fato, cria certos vícios… até porque o dia a dia na internet não é fácil pra pessoa que tem algum tipo de necessidade específica. Tem barreiras. E, conforme ele se aprofunda tecnicamente, ele vai tendendo a aprender também como contornar essas barreiras. Só que, se ele não desativa esse lado dele “espertinho” em tecnologia, na hora que ele está fazendo uma avaliação, ele vai trazer o que eu chamo de acessibilidade personalizada, que é: ele vai trazer uma acessibilidade pras necessidades dele naquele momento. Quais são as necessidades dele? Aquelas que ele não conseguiu contornar usando os meios que ele conhece. Consequentemente, a gente vai ter uma acessibilidade enviesada. A gente vai ter uma acessibilidade deficitária, porque a maioria dos usuários não possui aquele conhecimento que ele, especialista, está utilizando naquele momento ali pra contornar. Então é fundamental pro analista de acessibilidade, pro profissional de acessibilidade, seja em qualquer área, que ele aprenda a ter esse olhar crítico: quando eu tô fazendo pra mim, quando eu tô navegando num site, comprando uma coisa, enfim, da minha vida pessoal… e quando eu tô, de fato, analisando, buscando problemas de acessibilidade ali pra facilitar a vida de todos. No começo é muito difícil, porque você precisa ter uma… eu posso dizer… uma chavinha muito forte e um autopolicimento, um pensamento de si mesmo, pra garantir que você está fazendo isso. Mas, com o tempo, você vai criando esse hábito, vai criando esse costume e você vai aprendendo a fazer isso. Mas é essencial, fundamental, crucial… porque senão você vai sempre correr esse risco. Primeiro: de você ignorar bugs simples pra você, mas que impactam pessoas, usuários básicos. Ou até mesmo de, na sua vida pessoal, no seu momento de lazer, no seu momento de descontração, procurar problemas de acessibilidade… e aí você vai estar trabalhando em vez de estar descansando, o que também gera uma fadiga mental praquele usuário, praquele analista, praquele profissional de acessibilidade. E isso é um ponto crítico. Chega num certo ponto que aquela fadiga já tá tão alta que ele já não consegue mais equilibrar uma coisa com a outra e pode impactar o trabalho dele. Sim. Então é fundamental treinar o cérebro, treinar os nossos costumes, os nossos hábitos, pra saber separar esses dois momentos.

Wagner Beethoven: Admito que ainda estou nessa batalha de separar, sabe?

Bruno Welber: Mas entenda que eu te entendo.

Wagner Beethoven: Vamos pra segunda pergunta. Você fala no LinkedIn um tema muito interessante chamado Acessibilidade 360. O que significa exatamente esse termo? Esse conceito associado à tecnologia?

Bruno Welber: Quando a gente fala desse… “360”, é o momento que a acessibilidade deixa de ser um requisito pra criar uma acessibilidade sistêmica. Em que sentido? Quando você traz a acessibilidade como uma premissa, como uma política, como uma cultura, como uma norma, como um integrador de todo o processo dentro de uma empresa, dentro daquela marca, você começa, de fato, a ter acessibilidade… o mindset, a lei de acessibilidade estabelecido. Então, acessibilidade 360 é quando você começa a não só simplesmente colocar acessibilidade como um teste no final da esteira. É quando você começa a aplicar o shift left, quando você começa a trazer acessibilidade pra marca como um todo e quando você começa, dentro daquela empresa… não é só o meu canal digital que é acessível, mas eu busco também nas minhas lojas ser acessíveis. Eu busco também, no meu recrutamento de pessoas, ser acessível. Busco também ter a cultura de inclusão de uma forma muito efetiva dentro do contexto como um todo. Então, essa “esfera de 360” é você conseguir ter o olhar de tudo que tá à sua volta, integrar aquilo dentro de acessibilidade. Eu até brinco que acessibilidade é a “colinha” das empresas, porque a gente precisa de pessoas numa coisa transversal. A gente precisa ter essa dinâmica onde o profissional de acessibilidade não vai estar limitado dentro de uma caixa. Mas ele precisa fortalecer essa visão de trazer acessibilidade em todos os momentos, desde ouvidoria, desde o pessoal, desde o “criou” daquela empresa, até, de fato, o cliente final. Porque o cliente final nem sabe que aquela empresa está se posicionando como acessível. Se ele não sabe, se essa informação não chega até ele, talvez ele não tá nem buscando… vai ter interesse em explorar aquela marca por não ter essa informação. Então, 360 é no sentido de você realmente trazer ela como parte integrante de todo o processo. Então é uma política, um processo, um “puro” e uma norma. É uma acessibilidade sistêmica.

Bruno Welber: Você percebe, você sente acessibilidade em todas as etapas daquela empresa. É fácil chegar nisso? Obviamente não. É sofrido, vamos dizer assim. É uma longa jornada até você chegar nesse ponto. Mas o ideal, a premissa de acessibilidade, deveria ser de todos conseguirem chegar nesse nível. Então essa esfera do 360 é isso: você conseguir, pra qualquer lado que você olhar, a partir de onde você está, ver aquilo sendo aplicado da forma mais efetiva possível.

Wagner Beethoven: Um dos pontos bem interessantes dessa abordagem é que a gente só consegue ter… as pessoas que são as cabeças das empresas só conseguem ter essa abordagem quando a gente traz pessoas com deficiência pro ecossistema da empresa. Se uma empresa só contrata porque tem uma lei específica pra… por X colaboradores, tem que ter pessoas com deficiência… quando eu quebro essa barreira, eu trago de maneira muito natural, trazendo pessoas com deficiência e qualificadas, pessoas de outros nichos que não necessariamente tecnologia… profissionais que trabalham com RH, com marketing, seja lá qual for a área da empresa… é mais fácil que essa consciência seja criada e as pessoas tratem com mais naturalidade isso.

Bruno Welber: Eu diria que sim e não, Wagner. Porque, por um lado, quando você consegue trazer essas pessoas nessa roda bem multidisciplinar, já é uma empresa que tem um pézinho de ser uma empresa inclusiva, porque muitas empresas às vezes não traz por desconhecimento do tipo: “do que essas pessoas são capazes”, “do que essas pessoas têm, de fato, de potencial real” e, consequentemente, não abre essas oportunidades. Então, pra ela fazer esse tipo de coisa, já tem ali alguém que tá martelando, alguém que tá dando um “não”… “essas pessoas aqui não podem ser somente um custo pra mim, elas têm que, de fato, ser pessoas profissionais, pessoas que vão trabalhar pela evolução da minha empresa e trabalhar pela entrega da minha empresa.” Então, quando tem essas pessoas, já tem ali alguém que já começou essa jornada antes delas chegarem. É muito raro você ver empresas que traz pessoas com deficiência já nesse aspecto multidisciplinar e que estão começando agora, estão literalmente dando o primeiro passo nesse universo. Mas depois que dá esse passo, como você bem disse, as pessoas começam, sim, a ter uma visão muito mais concreta, muito mais tangível do valor dessas pessoas e de como, sim, elas podem estar ali como qualquer outro profissional, trabalhando pra sua lucratividade, trabalhando pra sua expansão, trabalhando pra sua empresa, de fato, ter um crescimento… e não só elas serem ali “cumpridoras de cota”, não ser só “um gasto que eu tenho mensal” porque o governo me obriga.

Wagner Beethoven: Maravilha. E a gente tá falando disso… se a gente for chegar nessa seara… eu meio que concordo, também discordo de ti, mas… acho que a conversa vai muito longe. E a gente tá falando de empresa. E quando a gente fala de empresa, a gente traz também a parte que a gente já entrou nesse assunto: a verdade é que a liderança é cultura estratégica nesse assunto. Eu queria falar agora… e a gente fala muito dessa liderança como uma… liderança que puxa esses assuntos, que bota na mesa isso pra se falar e ser debatido. Quais são as estratégias que você utiliza pra criar essa cultura de acessibilidade dentro das suas equipes? Cara… que seja um negócio genuíno, sem ser só obrigação.

Bruno Welber: Muitas. Depende muito. Esse é um ponto bem interessante, porque depende muito do contexto em que você está inserido. Em que sentido? Se você está numa empresa que é fortemente regulada… o mercado dela é fortemente regulado… é uma empresa que tem a obrigação de fazer acessibilidade… aí você pode ser um pouco mais agressivo, né, e trazer aquilo ali como realmente uma exigência logo de cara. E as pessoas se acostumam. Se é uma empresa que está no mercado que não é tão regulado… uma empresa que está no mercado onde ela pode ter algum risco ali, mas aquilo não é uma certeza… aí você precisa ir no modo “paciência 3000” e começar a lapidar essa pedra: avaliar quais estratégias você pode usar pra isso. Mas vamos focar nesse mercado não regulado, que é o mais comum. Primeiro passo: você trazer um valor praquelas pessoas… “por que que tá fazendo acessibilidade.” E quando eu falo de trazer o valor, não é você trazer simplesmente porque tem aumento de base de mercado, porque tem isso, tem aquilo. Você precisa entender qual a expectativa daquelas pessoas praquilo. Se eu vou falar com um dev, deve ser bom pra ele… mas se eu tô falando isso pra evitar uma multa… muitas vezes, na cabeça dele, pode passar: “quem vai pagar a multa é a empresa, não sou eu.” Então, pra ele, não tem relevância isso. Mas se eu chegar nele com o argumento do: “olha, você fazendo código acessível, você tá fortalecendo a sua base de código”, “eu tô trazendo aqui boas práticas”… e você traz um caso real, uma pessoa com deficiência de fato ali pra ele ver a experiência… às vezes ter uma pessoa com deficiência por perto… traga vídeos, materiais… traga formas. Isso tudo vai ter um propósito e, se tem um propósito, aquilo se torna natural, se torna prático. Mas antes de chegar nessa camada, vamos dizer assim, é extremamente importante que você atinja a liderança da empresa, porque acessibilidade, quando ela não é top-down, infelizmente ela tende a ser muito mais custosa, muito mais complexa de ser implantada e até mesmo de você trazer essa cultura de propósito pras pessoas. Porque o passo inicial delas, às vezes, precisa, sim, de um impulso ali um pouco mais forte pra que aconteça. Quando as pessoas estão muito sobrecarregadas, às vezes a equipe tá com prazos apertados… e chega alguém falando: “olha, tem um requisito a mais pra você.” Isso, a princípio, vai ser malvisto. Não tem como isso ser bem visto, sendo sincero. E mesmo quando você tenta criar o senso de propósito, já tem ali uma barreira inicial deles: “pô, mais uma coisa pra eu fazer.” Então, se você tem o apoio da liderança, se você consegue esse top-down pra dar o primeiro impulso, fica mais fácil de você lapidar, fica mais fácil de você conquistar e aplicar o propósito nas pessoas — tanto no aspecto dos designers, nos desenvolvedores, enfim, de todos ali envolvidos naquele projeto. Dá pra fazer sem apoio da liderança alta, sem um top-down? Dá. Mas o gasto de energia… o seu gasto pra conseguir alavancar alguma coisa é muito maior. E aí você precisa, de fato, trazer estratégias muito mais profundas. Em que sentido? Poxa, se você é um dev e quer trazer esse tema, vai lá, faz o seu código e mostra pro seu colega. “Olha, eu fiz assim e não tive esforço.” Se você é um designer, começa a fazer coisas acessíveis e, depois de feitas, entrega: “olha, eu fiz assim, assim… eu sei porque isso impacta…” e você começa a trazer essa questão do propósito, incentivar as pessoas a ter um outro olhar.

Wagner Beethoven: Ganha pelo exemplo, na verdade.

Bruno Welber: É. Pelo exemplo, sim.

Wagner Beethoven: E a gente tá falando aí de… uma palavra aqui: oportunidades… de fazer com que as empresas abordem esse assunto. Mas você já conseguiu identificar quais são os principais erros estratégicos que as empresas cometem quando elas estão abordando acessibilidade? Dá pra fazer sem apoio da liderança alta, sem um top-down? Dá. Mas o gasto de energia… o seu gasto pra conseguir alavancar alguma coisa é muito maior. E aí você precisa, de fato, trazer estratégias muito mais profundas. Em que sentido? Poxa, se você é um dev e quer trazer esse tema, vai lá, faz o seu código e mostra pro seu colega. “Olha, eu fiz assim e não tive esforço.” Se você é um designer, começa a fazer coisas acessíveis e, depois de feitas, entrega: “olha, eu fiz assim, assim… eu sei porque isso impacta…” E você começa a trazer essa questão do propósito, incentivar as pessoas a ter um outro olhar.

Bruno Welber: Ganha pelo exemplo, na verdade.

Wagner Beethoven: É, pelo exemplo. E a gente tá falando aí de oportunidades… de fazer com que as empresas abordem esse assunto. Mas você já conseguiu identificar quais são os principais erros estratégicos que as empresas cometem quando elas estão abordando acessibilidade?

Bruno Welber: Sim, vários. Um dos principais erros é tratar acessibilidade como projeto e não como processo. Quando a empresa trata acessibilidade como um projeto, ela acha que tem começo, meio e fim. “Ah, fizemos aqui, entregamos, testamos, tá ok, acabou.” E não é assim. Acessibilidade é contínua. Todo dia você tem atualização, todo dia você tem mudança de contexto, todo dia você tem uma nova pessoa usando aquilo. Outro erro muito comum é tratar acessibilidade só como deficiência visual. A gente sabe que acessibilidade vai muito além disso. Tem deficiência auditiva, motora, cognitiva, pessoas idosas, pessoas em contextos diversos. Quando a empresa reduz acessibilidade a leitor de tela, ela já começa errando na estratégia. Um outro erro é não envolver pessoas com deficiência no processo. Ou envolver só no final, pra validar algo que já tá pronto. Aí a chance de dar ruim é enorme. Porque você já tomou decisões erradas lá atrás e, no final, você descobre que aquilo não atende ninguém. Outro erro clássico é achar que acessibilidade é custo. Quando você entende acessibilidade como investimento, muda completamente a conversa. Porque você começa a ver redução de retrabalho, melhora de qualidade, ampliação de mercado, redução de risco jurídico. Mas enquanto a liderança enxergar como custo, sempre vai tentar cortar.

Wagner Beethoven: Isso conecta muito com aquela ideia de fazer só pra “cumprir tabela”, né?

Bruno Welber: Total. Cumprir tabela, cumprir norma, cumprir lei, sem entender o porquê. Aí vira uma acessibilidade frágil, superficial e que quebra na primeira mudança. Por isso que eu bato muito nessa tecla de cultura. Quando vira cultura, não depende de uma pessoa só, não depende de um projeto só. Acessibilidade passa a fazer parte da tomada de decisão natural da empresa.

Wagner Beethoven: Perfeito. Isso já responde várias perguntas que eu tinha separado aqui.

Wagner Beethoven: Vou puxar mais uma, então. Pensando em quem tá começando agora na área, seja design, desenvolvimento, produto… qual seria o primeiro passo realista pra começar a trabalhar com acessibilidade sem se perder?

Bruno Welber: Primeiro passo: parar de achar que você precisa saber tudo pra começar. Acessibilidade é uma jornada. Você começa pequeno. Aprende o básico, entende os princípios, entende o impacto. Se você é dev, começa escrevendo HTML semântico. Se você é designer, começa pensando em contraste, hierarquia, legibilidade. Não tenta abraçar o mundo. E, principalmente, não faz acessibilidade sozinho, isolado. Conversa com outras pessoas, participa de comunidades, escuta pessoas com deficiência. Isso acelera muito o aprendizado e evita muitos erros. E aceita que você vai errar. Errar faz parte do processo. O problema é errar e não querer aprender.

Wagner Beethoven: Boa. Essa parte do “não querer aprender” é onde muita gente trava mesmo.

Wagner Beethoven: E aproveitando esse gancho… você acha que existe um perfil ideal pra trabalhar com acessibilidade?

Bruno Welber: Eu não acredito em perfil ideal, não. Acessibilidade precisa de gente diversa. Precisa de pessoas técnicas, precisa de pessoas mais humanas, precisa de pessoas que questionam processo, precisa de gente que gosta de ensinar, precisa de gente que gosta de aprender. Se você tiver um time só de pessoas com o mesmo perfil, você vai criar soluções enviesadas. Então, pra mim, o mais importante não é o perfil, é a postura. É a pessoa estar aberta a ouvir, a errar, a rever decisão, a aprender com o outro. Se a pessoa tem isso, ela consegue trabalhar com acessibilidade em qualquer área.

Wagner Beethoven: Isso quebra muito aquela ideia de “especialista inalcançável”, né?

Bruno Welber: Totalmente. Inclusive, isso afasta muita gente da área. Quando você cria a imagem de que acessibilidade é só pra “gênios” ou pra quem sabe tudo de WCAG, você cria uma barreira de entrada. E a gente precisa do oposto: mais gente fazendo o básico bem feito. Porque o básico bem feito já resolve muita coisa.

Wagner Beethoven: Sim. Às vezes parece que se a pessoa não souber tudo de uma vez, ela nem começa.

Bruno Welber: Exatamente. E isso é péssimo, porque acessibilidade não se constrói com meia dúzia de especialistas. Se constrói com todo mundo fazendo um pouco melhor todos os dias.

Wagner Beethoven: Pensando agora no futuro… você é otimista ou pessimista com relação à acessibilidade digital no Brasil?

Bruno Welber: Eu sou realista otimista. A gente avançou muito nos últimos anos. Tem mais gente falando sobre o tema, tem mais empresas se preocupando, tem mais cobrança. Mas ainda tem muito chão pela frente. A gente ainda vê acessibilidade sendo tratada como exceção, como diferencial, quando deveria ser padrão. Então, eu sou otimista no sentido de que o movimento não vai parar. Mas pessimista se achar que isso vai se resolver rápido ou sozinho. Vai exigir pressão, vai exigir educação, vai exigir mudança cultural.

Wagner Beethoven: Trabalho de formiguinha.

Bruno Welber: Total. Trabalho de formiguinha todos os dias.

Wagner Beethoven: Pra gente caminhar pro encerramento, eu queria te fazer uma pergunta mais pessoal. O que ainda te incomoda hoje quando você olha pro mercado falando de acessibilidade? O que mais me incomoda é a superficialidade. Muita gente usa acessibilidade como discurso bonito, como marketing, mas sem profundidade real. Fala de inclusão, fala de diversidade, mas não muda processo, não muda cultura, não muda decisão. Aí vira uma coisa cosmética. Bonita por fora, vazia por dentro. Isso, pra mim, é o mais perigoso. Porque cria uma falsa sensação de avanço. As pessoas acham que estão fazendo acessibilidade quando, na prática, estão só repetindo checklist. E acessibilidade não é checklist. Checklist é ferramenta, não é objetivo.

Wagner Beethoven: É quando vira selo, né?

Bruno Welber: Exatamente. Vira selo, vira badge, vira post no LinkedIn. Mas quando você vai usar o produto, ele continua cheio de barreiras. Isso frustra muito quem depende daquilo pra viver, pra trabalhar, pra estudar. E frustra também quem trabalha sério com acessibilidade.

Wagner Beethoven: Porque parece que todo mundo tá no mesmo balaio, né?

Bruno Welber: Sim. Quem faz direito e quem só finge fazer. Por isso que eu bato muito nessa tecla da maturidade. A gente precisa sair do estágio “descoberta” e ir pra estágio de responsabilidade.

Wagner Beethoven: Pra fechar mesmo: se você pudesse deixar um recado pra quem tá ouvindo a gente agora, qual seria?

Bruno Welber: Não trate acessibilidade como favor. Trate como direito. Não trate como exceção. Trate como regra. E não espere estar “pronto” pra começar. Comece do jeito que dá, mas comece. Porque cada pequena decisão acessível melhora a vida de alguém do outro lado. E isso já vale o esforço.

Wagner Beethoven: Bruno, obrigado demais pela conversa, pela generosidade e pelo tempo. Tenho certeza que quem ouviu até aqui saiu com muita coisa pra refletir e aplicar. Pra você que chegou até o final, muito obrigado pela audiência. Compartilha esse episódio, comenta, manda pra quem precisa ouvir essa conversa. A gente se encontra no próximo episódio do Foco Acessível.

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